Cantos e Contos com Pasquale – I
Olá de novo galera!
Bom, hoje decidi divulgar um material um pouco diferente de minha autoria… Diferente não, porque continua sendo um livro, mas um que tem uma história bastante interessante…
Há pouco menos de um ano, a minha escola ingressou em um projeto, promovido pela Editora Positivo, chamado “Cantos e Contos com Pasquale“. Esse projeto consistia em os alunos produzirem uma série de contos, de, no máximo 2.000 caracteres, que seriam unidos e transformados em um pequeno livro. Não haviam muitas regras quanto à maneira que os contos haviam de ser escritos; a condição mais importante é que o Positivo, juntamente com o Professor Pasquale Cipro Neto (aquele da Gramática!), forneceriam duas letras de música, para inspirarem os alunos no que escrever, e também um pequeno início, de um ou dois parágrafos, que os alunos deveriam continuar para montar o conto.
Pois então, algum tempo depois dos contos terminados, o livro de contos finalmente ficou pronto. E qual não foi a minha surpresa quando, em um dia normal, apareceu no colégio uma representante do Positivo pedindo permissão para usar o meu livro e do meu amigo (fizemos o livro em duplas) como exemplar para as escolas do Brasil inteiro! Pois é, eu fiquei bastante surpreso… Afinal, não é todo dia que só você é escolhido entre pessoas do país inteiro… Mas, foi bem assim que aconteceu, e eu até ganhei um autógrafo do Professor Pasquale por conta disso! Vejam aí abaixo:
Bom, mas o que isso interessa para o blog mesmo? Ah é… Eu vou postar aqui mesmo, esses contos “vencedores” para vocês se divertirem um pouco… Como eu escrevi o livro com meu amigo, vou postar apenas os contos que fui eu que escrevi, a parte dele não perguntei se poderia postar… Mas mesmo assim, são 4 contos bem legais de ler! Vou postar um por dia… Então não deixem de conferir os próximos posts! Vou começar já nesse daqui:
TÍTULO: QUE PAÍS É ESSE?
Quando Renata voltou pra casa, 25 anos depois de ter se mudado para a França em busca da realização pessoal e profissional, não imaginava que iria encontrar tudo tão diferente e tão impressionantemente igual. As ruas, construções, pessoas e lugares não eram os mesmos. Ainda no táxi, a caminho da casa da tia, mal conseguia reconhecer o que via. Ela acompanhava as notícias de sua terra, mas vê-la assim, de perto, ao vivo e em cores era muito diferente. Quando a tia Denise a visitava, levava com ela tudo quanto era possível para lhe acalmar as saudades, mas as guloseimas, fotos, discos e novidades não eram exatamente um retrato de toda a realidade.
Parada no semáforo, olhou para o lado esquerdo e viu o mar, azulzinho, salpicado de surfistas e garotas a aliviar o calor escaldante ao mesmo tempo em que garantiam o bronzeado dourado. Levou um susto, quando na janela do lado direito apareceu um garoto, franzino e descalço, que, arma em punho, “pediu-lhe” dinheiro. Ela ficou em pânico, não soube o que fazer e sentiu medo, pena, vergonha – tudo ao mesmo tempo.
- Anda logo, tia! Passa a grana! – disse o garoto, irritado. Renata, atordoada com o momento, continuava imóvel, estática. Foi quando tudo aconteceu: o garoto passou a mão por detrás da roupa, e sacou uma arma já carregada. – Vai logo! Passa a carteira, droga! – disse novamente o garoto, e essa foi a última coisa que Renata ouviu naquele dia. O garoto, nervoso com a impassibilidade de Renata, puxou o gatilho da arma, disparando um tiro que acertou o dorso da mulher. Enquanto o sangue escorria e manchava a roupa da jovem, o menino puxou a bolsa feminina que estava encostada no banco do passageiro e saiu correndo, aos olhares curiosos de todos que ouviram o tiro. O sangue começou a escorrer rapidamente do ferimento, e a jovem foi perdendo a consciência vagarosamente, até que não viu mais nada.
Quando acordou, dois dias depois do incidente, Renata percebeu-se em um quarto todo branco. Olhou a seu lado direito: lá estava um homem, já de idade avançada, que dormia profundamente. Ao seu lado esquerdo, Renata encontrou uma menina, devia ter cerca de uns sete anos, e estava com toda a extensão dos seus cabelos cortada. – Sente-se melhor? – perguntou um homem alto vestido todo de branco – provavelmente um médico – que estava na porta do quarto. Nesse momento, a jovem lembrou-se do tiro; seu dorso ainda doía muito, não conseguia se mexer. – Eu sinto muito pelo que aconteceu, moça, mas acho que você vai ter que ficar aqui por algum tempo; seu ferimento é grave, e pode ser que não possa mais voltar a andar – anunciou o médico, que possuía um crachá, escrito “Dr. Roberto” na frente. Renata começou a chorar: - Vim para o Brasil e fiquei aqui por apenas um dia, e já corro o risco de não mais poder andar? Que país é esse? – pensou ela, enquanto lágrimas escorriam pela sua face.
A manhã passou melancólica aos olhos de Renata. Ficara o tempo inteiro pensando na sua infância, quando a tia Denise apareceu, de súbito, no quarto. – Minha sobrinha! Eu sinto muitíssimo! – disse a tia. – Eu vi o noticiário na televisão… Que desastre!
Enquanto conversavam, uma velha senhora chegou à entrada do quarto, e, apreensiva, começou a procurar alguma coisa com os olhos. – Eu estou aqui, minha amada! – respondeu o senhor que estava ao lado direito de Renata, que finalmente acordara. A velha senhora andou, a passos largos, atravessando o quarto, até chegar ao homem e poder tocar-lhe o rosto. Tia Denise nem percebera a entrada da senhora, e continuara a conversar com Renata sobre as novidades que aconteceram desde que se encontrara com a sobrinha pela última vez. No entanto, Renata não prestava mais atenção na tia; estava impressionada com o amor que aquele casal de velhinhos tinha, um com o outro. Em meio à correria do dia a dia, nunca teve tempo de notar esse tipo de atitude.
Já era de tarde quando o almoço foi servido; Renata, faminta, não deixou sobras no prato: afinal, não comia já fazia dois dias! Foi então que notou a presença de outra mulher a porta do quarto: a moça correu para o lado da criança da cama do lado esquerdo, e tentou acordá-la com um leve toque nos braços. Diante do olhar indiscreto de Renata, a mulher, provavelmente mãe da menina, disse: – Ela tem câncer – a mãe abaixou a cabeça. – E já está em fase terminal.
Durante os dias que se seguiram, Renata passou a conhecer um pouco de seus colegas de quarto: o senhor, chamado Frederico, era aposentado e sofrera um derrame cerebral há poucos dias; a menina, chamada Cláudia, tinha realmente sete anos, e descobrira seu câncer tarde demais para começar o tratamento. Conversando com a jovem, Renata descobriu muitas coisas em comum consigo mesma; a criança gostava de cozinhar, assistir filmes repetidos e amava sorvete. – Incrível como ela se parece comigo! Ah, quanta coisa essa menina ainda poderia viver se não tivesse tamanho azar… – pensou.
Duas semanas se passaram, até que o Dr. Roberto chegou com a feliz notícia: no dia seguinte, Renata receberia alta do hospital, sem risco de sequelas. Foi uma verdadeira festa: os três pacientes comemoraram, trazendo alegria para todo o hospital. Renata passou o dia contente, ansiosa por sair no dia seguinte e poder retomar a sua vida.
Pela manhã, Renata foi acordada pelos médicos, que retiraram todos os fios que ela ainda tinha no corpo, e passaram-lhe alguns papéis para assinar. Recolheu suas coisas, que a tia trouxera desde o incidente, e correu para se despedir de Frederico e Cláudia. Frederico desejou-lhe muita felicidade e alegria, e assim entusiasmada, Renata correu para despertar Cláudia. Mas a menina não acordara; estava com o corpo frio, e seu rosto estava pálido. Ela falecera.
Renata nunca havia ido há um enterro tão triste: muitos amigos compareceram, desolados com a perda da criança. Nem mesmo ela conteve o choro: passara tanto tempo na companhia dela, que percebeu o quanto aquela criança era especial. Novamente, indagou a si mesmo: – Que país é esse? – enquanto olhava para a situação. Mas desta vez, analisando tudo o que acontecera, obteve a resposta: – É um país de pessoas boas e perversas, que veem a vida de modos completamente opostos. Um país de contrastes, onde o amor se opõe ao ódio, e a paz se opõe a discórdia; e quem vence entre eles? Nenhum, os dois opostos sempre existirão. Mas é você que escolhe qual deles pode fazer a diferença na sua vida.
Publicado em 02/12/2010, em Cantos e Contos Com Pasquale, Dicas de Livros, Divulgação de Livros, Livros & Literatura, Meus próprios livros e marcado como arthur lucena, cantos e contos com pasquale, contos, dicas, livros. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.



Deixe um comentário
Comentários (1)