Capítulo II – O Lacre Mágico
E aí pessoal! Bom, como prometido, já estou postando o segundo capítulo do meu livro A Lenda de Avalon – A Espada do Rei. Espero que gostem! Comentem!
CAPÍTULO II – O LACRE MÁGICO
Para onde eles podem ter ido? – Arthur exclamou, pensativo, olhando para um grande quadro de sua mulher que havia na parede. – O que aquele traidor fez com o nosso filho, Guinevere?
Guinevere era uma mulher decidida, dona de uma beleza inimaginável. No quadro, trajava um longo vestido, com o brasão de Camelot – uma serpente – em destaque. Casara-se com Arthur há vários anos: o recém-coroado rei a escolheu para o matrimônio entre as várias garotas do reino. Sua feição parecia transtornada. Mesmo seus impressionantes olhos castanhos pareciam arder na chama de um fogo interior.
– Eu sempre imaginei que você o amava! – anunciou Arthur, sem medir as palavras. – E agora, acontece isso!
Subitamente, uma figura se materializou na frente de Arthur: era Merlin. O homem possuía uma barba de tamanho incomum e trajava uma túnica longa e sapatos enormes. Era mais baixo do que Arthur, mas seu chapéu de feiticeiro fazia com que aparentasse ser mais alto. Consideravelmente magro, Merlin possuía traços de alguém muito idoso que, em condições normais, já estaria morto há muito tempo. Merlin era um mago, e dos mais poderosos: sempre portando seu cetro feito de madeira de carvalho, o feiticeiro já demonstrara ser muito útil ao rei e extremamente fiel, apesar de nunca ter lhe prestado nenhum juramento de lealdade.
Merlin trazia novas notícias e anunciou-as com voz rouca:
– Caro rei, acabo de me informar que Safir já organizou seu exército, e está pronto para a busca por Yunnór. Seu cavalo já está pronto, e todos estão lhe aguardando – Merlin anunciou, com um tom de voz que trazia um tom de mistério para quem o ouvisse.
– Obrigado por me avisar, mago – disse Arthur, agradecendo com a cabeça. – Feiticeiro, você me acompanhará em minha busca?
Merlin parecia confuso:
– É com pesar que lhe digo, Arthur, que não poderei acompanhá-lo. Tenho outra importante busca a fazer; meu livro de encantamentos também desapareceu e preciso encontrá-lo o mais rápido possível. Segredos sinistros que jamais devem ser revelados estão guardados nele – disse o feiticeiro ao rei; exibindo sinais de extrema preocupação.
Preocupado, Arthur rapidamente saiu do aposento. Quando chegou ao térreo, avistou Safir e os outros na entrada do grande Castelo de Camelot. Correu ao encontro deles, montou em seu cavalo e saiu em busca de Yunnór.
O Castelo de Camelot parecia vazio sem a presença de Arthur. A fortaleza, construída por Uther Pendragon – o rei que antecedeu Arthur no trono – jamais tinha sido derrubada nas constantes guerras em que Avalon havia se envolvido. O povoado em geral considerava o castelo como um lugar enigmático: o monumento possuía passagens secretas que até mesmo Arthur desconhecia. Frequentemente, algumas eram descobertas acidentalmente por algum funcionário ou convidado do rei. Uma grande estátua em forma de serpente, erguida em homenagem a Arthur, há uma década, era feita de ouro puro, e estava colocada logo na entrada do castelo.
***
Já começava a anoitecer quando Arthur, Safir, e os outros voltaram da expedição. Todos estavam extremamente cansados e abatidos, além de muito mal-humorados.
Alguns cavaleiros aguardavam Arthur na entrada do castelo, junto à estátua de ouro. Indagado sobre o resultado da busca, o rei respondeu com rancor:
– Nada, não encontramos nada. Procuramos por todos os povos, toda a floresta, mesmo em Camelot ou nos antigos túneis dos anões. Ninguém os viu, ninguém sabe. Eles simplesmente desapareceram.
– Mas como, meu rei? Lancelot e Guinevere têm que estar em algum lugar de Avalon! – exclamou um dos guerreiros.
– Tenho guardas procurando por eles em todo o reino, e ninguém encontrou nada até agora. Isso tudo indica que eles não estão mais em Avalon; devem ter partido para o exterior. Eu sei que é difícil acreditar, mas não encontraremos Yunnór tão cedo – disse o rei, recolhendo-se a seus aposentos. Inexplicavelmente, sua face cintilava em alívio.
***
– Não! Não posso ajudá-lo Arthur, nem se minha vida dependesse de seu pedido! – respondeu Merlin, surpreso com tamanha proposta. Sua boca tremia, sua voz parecia descontrolada. Toda a calma que outrora lhe parecia permanente, desapareceu.
– Merlin, creio que não haja outra solução – Arthur disse, assumindo um tom de seriedade. – Minhas recentes investigações apontaram que uma horrenda trama tem a mim como alvo. Não posso deixar que me capturem, ou Avalon estará perdida.
– Mas Arthur, é muito arriscado! Mexer com a magia antiga não é algo muito fácil de fazer, não posso ter certeza dos resultados. E se algo der errado, e se sua alma não ficar selada, e Excalibur for descoberta por qualquer outro que não estiver predestinado? – exclamou Merlin, andando de um lado a outro do quarto, preocupado. – Como poderei ter certeza de que a profecia se realizará, como saberei quem será o escolhido para libertá-lo de sua prisão espectral? Não posso fazê-lo Arthur, Avalon e o reino não podem se arriscar a perdê-lo, digníssimo rei.
– Será muito pior para Avalon se me assassinarem e tomarem o governo. Preciso que você me enfeitice, Merlin. Passei os dois últimos dias planejando como funcionará: usando todo o poder mágico que Excalibur possui, criarei quatro pergaminhos. Estes serão escondidos em toda Avalon. Assim, quando o escolhido chegar, ele reunirá os quatro pergaminhos, que, combinados, me libertarão de seu feitiço.
O andar intrigante de Merlin cessou, e ele disse:
– Receio que me arrependerei amargamente no futuro, mas devo admitir que você está certo, será pior para Avalon se você for assassinado. Voltemos aqui dentro de duas semanas, tempo necessário para que você esconda os pergaminhos enviando-os magicamente com Excalibur, e também para que eu crie o feitiço. Farei isso a contragosto, mas sei que é necessário – disse o feiticeiro, desolado com a arriscada decisão.
– Fico grato pela sua ajuda, feiticeiro. Nunca me esquecerei de sua fidelidade. Vejo-te em duas semanas – Arthur exclamou, caminhando vagarosamente até a porta, onde olhou seu quadro na parede do aposento. O quarto era amplo e cheio de presentes que Arthur ganhara de seu povo. Um deles era o quadro, pintado pelo melhor artista do reino, recebido no dia de sua coroação. Nele, Arthur era retratado jovem, com uma feição um tanto angelical, segurando Excalibur, recém-descoberta, entre as mãos.
– Arthur! – O mago exclamou, inesperadamente. O rei voltou os olhos em direção a Merlin. – Gostaria que soubesse que Avalon nunca se esquecerá de seu reinado. O povo possui uma consideração especial por você que nunca se viu com nenhum outro governante – emocionado, Merlin finalizou – Só queria que soubesse disso. – E sumiu, deixando apenas uma nuvem de fumaça no aposento.
– Obrigado – Arthur disse, mesmo sabendo que se encontrava só. – Nunca me esquecerei de Avalon também.
E saiu, caminhando a passos largos pelos corredores de Camelot.
***
Dez dias já haviam se passado desde a conversa entre Merlin e Arthur. Entretido com seus feitiços, Merlin era avistado pelos moradores apenas em ocasiões especiais.
No mesmo período, Arthur partiu em uma grande caminhada pelo reino. O rei selou seu cavalo, vestiu sua armadura, colocou Excalibur na bainha e saiu em sua missão. Foi até a ilha Kwön, onde morava uma velha feiticeira chamada Morgana; lá, ele enviou os quatro pergaminhos para os lugares secretos que ele mesmo havia escolhido, o que se mostrou ser uma exaustiva tarefa.
Quando precisava esconder o último pergaminho, Arthur ficou indeciso quanto ao esconderijo do objeto.
– Como poderei me certificar de que a profecia não se realize a alguém indesejado? Como poderei assegurar que Avalon não sofra ainda mais? – Arthur falou sozinho. Repentinamente, seu semblante iluminou-se. Tinha encontrado uma solução.
***
Entre todos do reino, além de Merlin e Arthur, o único que sabia dos planos era Safir. O cavaleiro, experiente e leal, jurou não confessar o segredo a ninguém, e enchia de desculpas aqueles que desconfiavam de alguma coisa. Safir não contou nada nem mesmo para seus companheiros, Gareth, Leonel e Ivain, todos Cavaleiros da Távola Redonda. Devido à traição de Lancelot, Arthur se opunha a qualquer sugestão de revelar seus planos a qualquer um que não fosse Merlin e Safir.
Ao anoitecer do décimo terceiro dia, o rei estava de volta ao castelo, exausto. Na penumbra da noite, Arthur levantou-se da cama e, silenciosamente, dirigiu-se para o laboratório de Merlin. O aposento ficava no topo da torre esquerda do castelo, fazendo com que Arthur atravessasse a fortaleza inteira para chegar ao cômodo.
Quando já estava na metade do caminho, lembrou-se que havia esquecido Excalibur no quarto. Como fui tão descuidado? – pensou ele. Voltou ao aposento, evitando fazer qualquer barulho desnecessário, pegou a espada, e retornou para os corredores do castelo.
Ao chegar à passagem que antecedia o laboratório, percebeu uma densa fumaça por todo o corredor: vinha dos aposentos de Merlin. Bateu na porta algumas vezes, tentando fazer o mínimo de barulho possível para que apenas o feiticeiro ouvisse o chamado. Não demorou muito, e a voz rouca e familiar de Merlin murmurou:
– Entre, Arthur, vejo que não desistiu de seus planos. Seria um rei mais prudente se o tivesse feito.
– Tal decisão não me tornaria mais prudente – Arthur retrucou. – Me tornaria apenas covarde.
Merlin concordou, acenando com a cabeça. Arthur sabia que, mesmo com o feiticeiro disfarçando, censurando-o com vigor, era possível perceber que o mago tinha um instinto de aventura, que o movia a aceitar tudo aquilo.
– Passei toda a semana trabalhando no feitiço. Consultei alguns velhos amigos meus, e descobri o encantamento certo. Pena que meu livro de feitiços desapareceu; seria de grande importância gravar este encantamento nele, caso fosse necessário usar o feitiço novamente. Agora, diga; conseguiu esconder os pergaminhos em lugares protegidos de intrusos?
– Não só o fiz, como também criei uma maneira de garantir que a magia não se cumpra nas mãos das pessoas erradas. Mas, por motivos de segurança, gostaria que esse meu plano ficasse secreto até mesmo para você.
– Se assim deseja, rei, não posso me opor. Está realmente decidido? – perguntou Merlin, assumindo novamente um tom de seriedade.
– Sim, para o bem de toda Avalon, essa é minha decisão final. – Respondeu Arthur, seguro de seu veredito.
– Se é assim… Até alguns anos, ilustre rei. Foi uma honra servi-lo em seu reinado – Merlin concluiu, pegando seu cetro, e mirando-o em direção a Arthur.
Repentinamente, os olhos do feiticeiro adquiriram uma cor verde esmeralda, que circulou por toda a órbita dos olhos. As vestes compridas do mago começaram a se levantar, um forte vento circulou por todo o laboratório; dezenas de palavras e estranhos sons escaparam de sua boca, palavras que não pareciam ter poder algum quando declamadas sozinhas, mas que, no feitiço, adquiriam um tom visivelmente poderoso. Uma luz azulada, vinda da esfera no cetro de Merlin, iluminou todo o laboratório.
Junto a ela, o vento aumentou de velocidade e força, varrendo todos os frascos e vidros que se apoiavam nas mesas.
Passado alguns minutos, o feitiço parecia estar acabando. No mesmo ritmo que as palavras paravam de sair dos lábios secos do mago, a luz azul foi se apagando. Uma intensa e densa fumaça surgiu no ambiente. De repente, um forte estalo metálico ecoou por todo o castelo: diante de Merlin não se encontrava mais nada, exceto a preciosa Excalibur que tinha caído no chão.
Diante disso, Merlin apanhou a espada e preparou-se para sua longa caminhada até o templo Ignión, o Templo das Almas, onde, segundo o plano de Arthur, Excalibur deveria ficar selada; ela era a última peça do plano do rei, e sem ela, de nada adiantariam os pergaminhos.
***
Ao amanhecer, todos os habitantes do castelo foram acordados por um horrendo grito feminino vindo do quarto do rei. Os primeiros que chegaram ao aposento foram Safir e os outros Cavaleiros da Távola Redonda, todos de espada em punho, preparando-se para uma batalha. Não demorou muito até que percebessem a razão do grito da camareira: Arthur desapareceu. Alguns instantes depois, quando estavam discutindo que fim o rei poderia ter levado, Gareth encontrou, apoiado nos presentes que Arthur recebeu com o término da guerra, uma carta. Gareth leu-a em voz alta para todos:
Prezados amigos e companheiros:
Receio que meu reinado em Camelot tenha chegado ao fim por enquanto; nossos inimigos foram derrotados e Avalon poderá evoluir sem minha ajuda. Portanto, não creio que seja certo eu governar por mais tempo; já faz anos que estou no governo, e é justo eleger um novo governante.
Estou protegido por uma magia que me trará de volta ao mundo quando Avalon precisar, por isso não percam tempo me procurando pelo reino. Contudo, antes que eu seja destronado, gostaria de solicitar uma última ordem: o novo rei deve passar pela aprovação unânime dos Cavaleiros da Távola Redonda e do feiticeiro Merlin, e a eleição do novo rei deve começar imediatamente. Isso garantirá que Avalon cresça e prospere.
Nunca me esquecerei de vocês, quem eu realmente posso chamar de amigos. Espero que nunca se esqueçam de mim.
Arthur
Lágrimas escorriam pelos olhos de Gareth quando ele terminou a leitura. Todos olhavam apreensivos uns para os outros, sem acreditar na decisão que Arthur tomara. Uma nova Era começaria em Avalon.
Poucos dias se passaram desde que a carta de Arthur foi encontrada. Vários pretendentes se mostraram requisitando o trono para si. Eram eles: Gaar, descendente da família Vohr; Ishira, ex-conselheiro de Arthur; e o próprio Safir que, com o intuito de preservar a imagem do antigo rei, resolvera tentar subir ao trono.
Todos os três guerreiros apresentaram-se para o povoado, discutindo sobre como seria seu governo se assumisse o trono. Ao entardecer, os cavaleiros reuniram-se no castelo para decidir quem seria o governante.
Dentro do clã dos Cavaleiros havia uma velha disputa, por muito tempo esquecida, mas que voltou à tona com a proposta de coroação de Safir.
Foi muito difícil e penoso convencer a todos que Safir era o melhor e mais preparado guerreiro para assumir o trono, mas ao final da reunião, o conselho decidiu pela coroação de Safir.
No dia seguinte, anunciou-se a vitória do cavaleiro, e, ao entardecer, este foi coroado, governando Avalon por um longo tempo.
Publicado em 06/01/2011, em A Lenda de Avalon - A Espada do Rei, Livros & Literatura, Meus próprios livros e marcado como a lenda de avalon, arthur lucena, aventura, livros. Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

Muito interessante.É uma versão livre?Como você conserva os nomes originais, não seria interessante esclarecer esses detalhes? Apenas para aproximar mais os jovens dos clássicos.
Um grande abraço
Olá La Preciosa! Estive pensando na mesma coisa… Acho que vou adicionar um apêndice no final do livro, com informações extras sobre cada um dos personagens. Valeu pelo comentário!
eu quis dizer citar a sua fonte de inspiração…
por exemplo: versão livre sobre a obra de shakespeare Romeu e Julieta…
Ou: Versão livre sobre a lenda de ulisses…
(desculpe ñ usar maiúsculas, tenho preguiçars rs )
Ah, sim. Desculpe, não havia entendido. Bom, é que a obra não é inspirada na versão de apenas um autor. O tema “Rei Arthur” já foi utilizado por inúmeros autores, como por exemplo Marion Zimmer e Bernard Cornwell, cada um apresentando uma versão. Se eu tivesse que classificar a minha obra, diria que ela está mais próxima de Bernard Cornwell, mas também é verdade dizer que ela funde algumas ideias de outros autores. Digamos assim, procurei pegar o melhor de cada versão e mesclar para dar embasamento teórico. Mas, como você verá nos capítulos seguintes, o papel desses personagens citados em obras anteriores não exercerá tanta influência no enredo.
Obrigado pelo interesse, e continue sempre acompanhando! Valeu!
Um grande abraço,
Arthur Lucena