Capítulo XI – O Exército de Aaron

 

CAPÍTULO XI – O EXÉRCITO DE AARON

Merlin aterrissou nas proximidades do enorme desfiladeiro de Datha Lhur, onde haviam montanhas que atingiam centenas de metros de altura. Subitamente, rugidos de algum animal feroz ecoaram por entre as montanhas. Em seguida, uma intensa rajada de fogo surgiu, em direção ao céu. Merlin, apesar de tudo, não estava assustado: ele sabia de onde aquele fogo originara-se. O mago estava no lar dos dragões.

Não demorou muito até que chegasse ao esconderijo das criaturas. Logo ao se aproximar, foi recebido por duas rajadas de fogo que impediam sua passagem. Uma voz tenebrosa disse:

– QUEM ÉS TU, HUMANO? QUE CONHECE O SEGREDO DOS DRAGÕES E SE ATREVE A VIR ATÉ NÓS? – Um dragão enorme de coloração esverdeada pousou na frente de Merlin. A criatura era magnífica. O corpo, todo revestido pelas escamas, brilhava ao sol; as asas, dobradas ao pousar, eram as maiores que já se viram. – Como essa criatura consegue voar? Não faz sentido científico! – pensou Merlin enquanto se aproximava do dragão. – Seu peso é grande demais! Se eu mesmo não tivesse visto, não teria acreditado…

– Sou Merlin, Mago Supremo da Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda! Venho até vós solicitar uma audiência com o Lorde Dragão, para tratarmos sobre a guerra humana que está por vir – Merlin esperava ansiosamente pela chegada do Lorde Dragão. Em seus quinhentos anos de vida, as criaturas que mais o fascinaram foram os dragões. E, segundo os boatos que corriam entre os humanos que conseguiram sair do desfiladeiro vivos, o Lorde Dragão era o que mais impressionava; seria uma honra para o feiticeiro conhecê-lo.

– A audiência foi aceita! – Um imponente dragão vermelho pousou ao lado do outro. Com o bater das asas, Merlin foi empurrado para trás; as rajadas de vento eram muito fortes. O dragão, duas vezes maior que o outro, possuía escamas de uma cor avermelhada não encontrada em nenhum outro lugar. Apesar de ser um dragão velho, fato perceptível pelas rugas e quebraduras ao longo de todo corpo, experiência e energia emanavam de sua face. Como Merlin, o dragão parecia já ter vivido muito tempo, suficiente para entender o “estranho mundo dos humanos”.

– Eu sou o Lorde Dragão. O que você quer de mim, jovem feiticeiro? – A voz do dragão era intensa, e ecoou por todo desfiladeiro.

– É estranho você me chamar de jovem, Lorde Dragão; no mundo dos humanos, todos me tratam como velho – Merlin ria, enquanto o dragão permanecia inerte. – Venho pedir-lhe apoio em nome de Arthur, de Camelot, para lutar ao nosso lado na grande batalha que está por vir.

Uma labareda de fogo emanou da boca do Lorde Dragão em direção ao céu, clareando-o. – NUNCA! Os dragões não se envolverão nos conflitos dos humanos! Não somos animais de carga e há muito tempo decidimos não criar alianças com ninguém! – Novamente, a voz ecoava pelas montanhas.

– Neste caso, isso é tudo – Merlin desapareceu, deixando sua costumeira nuvem de fumaça para trás.

***

Casulos entreabertos, teias por toda a parte, insetos dilacerados; não havia dúvida: Merlin estava no covil das aranhas. Com duas batidas do cetro no chão, a esfera no topo de seu bastão acendeu-se, emitindo a familiar luz azulada ao longo de toda caverna. O lugar, além de muito escuro, possuía centenas de esqueletos de animais espalhados pelos túneis; além de dificultar a passagem, era assustador.

Merlin permaneceu calmo e caminhou cautelosamente pelo túnel que julgou mais adequado. Subitamente, ouviu um barulho e um forte puxão entre suas pernas fez com que tombasse e caísse sentado no chão. Rapidamente, seus olhos brilharam numa luz azulada, e a força da luminosidade do cetro aumentou, revelando uma aranha extremamente gigante com as presas em sua direção.

– Ora, ora! O que temos aqui!? – Merlin disse, calmo como se nada tivesse acontecido. – Antes de tentar me atacar e provar da minha magia, poderia me levar até sua rainha?

– Velho atrevido! Como ousa?! É bom ter um ótimo motivo para tratar com a rainha, caso contrário eu mesma me encarregarei de você! – A voz da criatura, semelhante ao barulho de um chocalho de cobra, doía aos ouvidos de Merlin. A criatura era assustadora: idêntica a uma aranha comum, mas com o tamanho ampliado em centenas de vezes.

– Venha! Não tenha medo! As aranhas não lhe farão mal… Ainda! – A aranha começou a andar pelo túnel, até chegar a um gigantesco casulo lacrado e cercado por inúmeras aranhas similares a ela. Perante o casulo, a aranha emitiu uma sequência de chiados incompreensíveis a Merlin. Como resposta, a criatura recebeu uma nova sequência de chiados.

– Tem muita sorte, feiticeiro. A rainha aceitou sua audiência.

A criatura voltou-se para o enorme casulo e, com um rápido movimento de sua presa, fez um grande corte que rompeu a parede do casulo. Merlin, serenamente, seguiu a aranha, entrando pela parede quebrada que, logo em seguida, foi rapidamente restaurada por dois guardas.

Não houve tempo para que Merlin observasse o lugar onde se encontrava: uma gigantesca aranha, cerca de cinco vezes maior que a aranha que o conduzia, estava recostada em um grande bolo de teia. Parecia ser o ninho de onde vinham aquelas horrendas criaturas.

– Há quanto tempo não o vejo, caro Merlin! – A voz da aranha ressoava pelo lugar, estridente. Ao contrário das outras aranhas, a rainha possuía um abdômen desproporcional ao resto do corpo: característica específica de uma exímia reprodutora. – Desde a grande batalha contra Mordred, em que você desapareceu no meio da luta, não te encontro! O que quer de mim dessa vez?

– Shynaga, soberana das aranhas, é bom vê-la novamente. Vejo que andou muito ocupada: o covil das aranhas mudou muito desde a última vez que nos vimos – Perante a expressão incrédula da aranha guia, que não conseguia acreditar na intimidade entre ele e Shynaga, Merlin continuou – gostaria de solicitar seus serviços novamente, minha ilustre rainha. Uma nova batalha se aproxima; meu jovem pupilo, Aaron, está passando por grandes perigos para libertar Arthur de sua prisão espectral. Será uma luta contra o grande exército de Camelot; mas, se tivermos a sua ajuda e a de suas filhas, teremos grandes chances de vitória.

– Realmente, amigo Merlin, me lembro do anúncio de Arthur, e também já sei da jornada do seu pupilo. Há alguns dias venho pensando se comprometeria meu povo novamente em uma batalha como essas, e antes que você chegasse, já havia me decidido – O suspense no discurso de Shynaga já estava perturbando a serenidade do mago.

– E então, pelo que optou, Shynaga? Fale logo; meu tempo é curto, a batalha se aproxima a passos largos.

– As aranhas não são covardes e jamais se esconderão! Assim, meu caro amigo, as aranhas estarão ao seu dispor nesta batalha! – Com a decisão, todas as criaturas que se encontram ao redor deles começaram a chiar, em um uníssono infinito.

– Obrigado, Shynaga; mais uma vez, você provou ser digna de seu posto; voltaremos a nos ver em breve! – Merlin bateu com seu cajado no chão com bastante força. Um fogo azulado o encobriu por inteiro, enquanto ele desaparecia no calor das chamas. Antes de sumir por completo, o feiticeiro deixou uma mensagem estridente no ar: por todo o túnel, as centenas de aranhas que perambulavam por lá escutaram uma sonora exclamação de “Vida longa a Arthur e a seus aliados!” que ecoava até a superfície.

***

Um grande círculo de grama queimada formou-se ao redor do local do reaparecimento de Merlin. – Finalmente, ar fresco! – Não houve mais tempo. Várias cordas desceram por entre as gigantescas árvores que contornavam a recém-criada clareira, e um coro de vozes femininas que entoavam um estranho grito de guerra ecoava pela floresta. Lanças apareceram aos pés do mago e, em questão de alguns segundos, ele via-se perante a uma mulher, toda adornada com folhas e couro, que lhe apontava uma adaga, uma pequena arma que mais parecia uma faca.

– Quem é você? – Indagou a voz feminina, enquanto atava as mãos do mago com espessas cordas.

 

Publicado em 15/01/2011, em A Lenda de Avalon - A Espada do Rei, Livros & Literatura, Meus próprios livros e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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